Dra. Clarisse Mourão Melo Ponte Endocrinologia e Metabologia
CRMEC 8692 | RQE 3766
Obesidade: manejo baseado em risco cardiovascular
A Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade estabelece um novo paradigma no cuidado da obesidade, centrado na estratificação do risco cardiovascular como principal determinante da conduta clínica .
Essa abordagem reconhece que o impacto da obesidade não é homogêneo e que o risco associado varia conforme fatores clínicos, metabólicos e cardiovasculares.
🔎 Estratificação de risco cardiovascular
A diretriz recomenda que todos os indivíduos com sobrepeso ou obesidade sejam avaliados quanto ao risco de:
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Doença aterosclerótica cardiovascular (DASCV)
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Insuficiência cardíaca (IC)
Sempre que aplicável, deve-se utilizar o escore PREVENT, que estima o risco em 10 anos e incorpora variáveis cardiometabólicas relevantes.
📊 Classificação de risco (DASCV)
🟢 Risco baixo (< 5% em 10 anos)
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Indivíduos sem fatores de risco adicionais
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IMC < 40 kg/m²
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Sem doença cardiovascular estabelecida
🟡 Risco moderado (5–20% em 10 anos)
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Presença de um ou mais fatores de risco (hipertensão, dislipidemia, etc.)
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Sem evento cardiovascular prévio
🔴 Risco alto (> 20% em 10 anos)
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Doença cardiovascular estabelecida (IAM, AVC, DAC, revascularização)
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Diabetes de longa duração
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Doença renal crônica
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LDL elevado ou alto escore de cálcio coronário
🔴 Risco alto para insuficiência cardíaca
Inclui pacientes com:
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IMC > 40 kg/m²
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associação de obesidade com diabetes e hipertensão
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apneia obstrutiva do sono grave
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fibrilação atrial
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elevação de BNP/NT-proBNP
Essa distinção é central, pois direciona diretamente a escolha terapêutica.
🎯 Indicações de tratamento por estratificação de risco
A diretriz propõe uma abordagem escalonada e orientada por risco:
🟢 Risco baixo
👉 Foco principal: prevenção
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Mudanças intensivas no estilo de vida
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Objetivo: perda de peso ≥ 5%
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Monitoramento clínico periódico
🟡 Risco moderado
👉 Foco: redução de fatores de risco
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Estilo de vida + perda de peso ≥ 5%
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Considerar farmacoterapia para obesidade:
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agonistas de GLP-1
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terapias com maior impacto metabólico
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📌 Objetivo: melhorar perfil cardiometabólico e evitar progressão
🔴 Risco alto (DASCV)
👉 Foco: redução de eventos cardiovasculares
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Terapia farmacológica com benefício cardiovascular comprovado:
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agonistas de GLP-1 (ex: semaglutida)
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inibidores de SGLT2 (quando DM2 presente)
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Perda de peso ≥ 10%
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Considerar cirurgia bariátrica (especialmente IMC elevado)
📌 Aqui, o tratamento deixa de ser apenas metabólico → passa a ser cardioprotetor
🔴 Insuficiência cardíaca estabelecida ou alto risco de IC
👉 Foco: melhora funcional e redução de desfechos
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Perda de peso significativa (>10%)
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Uso de:
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SGLT2 (redução de hospitalização e mortalidade)
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agonistas de GLP-1 (melhora de sintomas e qualidade de vida)
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Avaliação criteriosa para cirurgia bariátrica
📌 Abordagem integrada cardiometabólica
⚠️ Ponto central da diretriz
A principal mudança proposta é clara:
👉 O tratamento da obesidade não deve ser guiado apenas pelo peso
👉 Deve ser guiado pelo risco cardiovascular e pelos desfechos clínicos
Isso evita tanto:
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subtratamento de pacientes de alto risco
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quanto intervenções desnecessárias em pacientes de baixo risco
🧭 Conclusão
A diretriz brasileira de 2025 consolida uma abordagem moderna, baseada em evidência e centrada no paciente. Ao incorporar a estratificação de risco cardiovascular na tomada de decisão, permite uma prática mais precisa, individualizada e alinhada com desfechos clínicos relevantes.
Mais do que reduzir peso, o objetivo passa a ser reduzir risco, prevenir eventos e melhorar prognóstico.
Referência:
Saraiva JFK, Valerio CM, Rached FH, van de Sande-Lee S, Giraldez VZR, Valente F, et al.
Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas.
Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250621.