Dra. Clarisse Mourão Melo Ponte Endocrinologia e Metabologia
CRMEC 8692 | RQE 3766

Tratamento farmacológico da obesidade
O tratamento da obesidade envolve uma abordagem estruturada que inclui mudanças no padrão alimentar, atividade física, intervenções comportamentais e, quando indicado, terapia farmacológica.
De acordo com as diretrizes brasileiras recentes, o uso de medicamentos pode ser considerado em pacientes com:
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IMC ≥ 30 kg/m², ou
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IMC ≥ 27 kg/m² na presença de comorbidades, como diabetes tipo 2, hipertensão, apneia obstrutiva do sono ou doença hepática gordurosa associada ao metabolismo.
As medicações utilizadas atualmente atuam sobre diferentes mecanismos fisiológicos envolvidos na regulação da fome, saciedade e metabolismo energético.
A seguir estão as principais classes terapêuticas utilizadas no tratamento da obesidade.
Conheça as principais classes de tratamento
Agonistas do receptor de GLP-1
Os agonistas do receptor do GLP-1 (glucagon-like peptide-1) atuam mimetizando um hormônio intestinal liberado após as refeições.
Seu mecanismo de ação inclui:
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aumento da sensação de saciedade
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redução da ingestão alimentar
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desaceleração do esvaziamento gástrico
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melhora da regulação glicêmica.
Entre os medicamentos dessa classe estão liraglutida e semaglutida.
Nos estudos clínicos randomizados, essas medicações demonstraram perda média de peso entre aproximadamente 8% e 15% do peso corporal, dependendo da dose e da duração do tratamento.
A semaglutida, por exemplo, foi avaliada em grandes estudos clínicos (programa STEP), nos quais pacientes tratados apresentaram perda média próxima de 15% do peso corporal.
Entre os efeitos adversos mais comuns estão:
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náuseas
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sensação de plenitude gástrica
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vômitos ocasionais
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constipação ou diarreia.
Esses sintomas geralmente ocorrem no início do tratamento e tendem a diminuir com a adaptação do organismo.
Agonista duplo GIP/GLP-1
A tirzepatida representa uma nova classe terapêutica que atua simultaneamente nos receptores de GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide) e GLP-1.
Esse duplo mecanismo potencializa efeitos relacionados à regulação do apetite e do metabolismo energético, levando a:
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maior saciedade
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redução da ingestão alimentar
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melhora da sensibilidade à insulina.
Nos estudos clínicos do programa SURMOUNT, a tirzepatida demonstrou reduções médias de peso entre aproximadamente 15% e 22% do peso corporal, dependendo da dose utilizada.
Os efeitos adversos mais frequentes são semelhantes aos observados com agonistas de GLP-1, principalmente:
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náuseas
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sintomas gastrointestinais
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sensação de plenitude.
Associação naltrexona/bupropiona
A combinação de naltrexona e bupropiona atua principalmente em circuitos do sistema nervoso central envolvidos na regulação do apetite.
Seu mecanismo envolve a modulação de neurônios do hipotálamo relacionados ao controle da fome e da saciedade, além de influência sobre sistemas de recompensa alimentar.
Nos estudos clínicos que avaliaram essa combinação, a perda média de peso observada foi de aproximadamente 5% a 8% do peso corporal.
Entre os efeitos adversos possíveis estão:
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náuseas
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cefaleia
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insônia
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aumento da pressão arterial em alguns pacientes.
Por essa razão, o tratamento requer avaliação clínica cuidadosa e acompanhamento médico regular.
Orlistate
O orlistate atua por um mecanismo diferente das demais classes. Ele age no trato gastrointestinal, inibindo parcialmente a absorção de gorduras alimentares.
Ao bloquear a enzima lipase pancreática, cerca de 30% da gordura ingerida deixa de ser absorvida, contribuindo para redução do balanço energético.
Nos estudos clínicos, o orlistate demonstrou perda média adicional de peso entre 3% e 5%, quando associado a mudanças no estilo de vida.
Os efeitos adversos mais comuns estão relacionados ao trato gastrointestinal, como:
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evacuações oleosas
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urgência fecal
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aumento da frequência intestinal.
Esses sintomas são geralmente mais evidentes quando a ingestão de gordura na dieta é elevada.
Escolha do tratamento
A escolha do tratamento farmacológico deve considerar diversos fatores, como:
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perfil clínico do paciente
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presença de comorbidades
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histórico de tratamentos prévios
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tolerabilidade aos medicamentos
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objetivos terapêuticos.
O tratamento da obesidade é um processo individualizado e de longo prazo, que envolve acompanhamento médico contínuo e integração entre diferentes estratégias terapêuticas.
Referência
Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretriz brasileira de tratamento farmacológico da obesidade – 2026. São Paulo: ABESO; 2026. Disponível em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Diretriz-Brasileira-de-Tratamento-Farmacologico-da-Obesidade-ABESO-2026.pdf