Dra. Clarisse Mourão Melo Ponte Endocrinologia e Metabologia
CRMEC 8692 | RQE 3766

Acompanhamento
O tratamento do diabetes exige mais do que prescrição medicamentosa. Envolve educação estruturada, técnica adequada e monitoramento contínuo para reduzir riscos e garantir estabilidade metabólica.
Nesta seção, você encontra orientações práticas sobre aplicação de insulina, monitoramento glicêmico, manejo da hipoglicemia e cuidados preventivos — sempre com base em segurança, individualização e acompanhamento clínico.
O autocuidado orientado faz parte da estratégia terapêutica e contribui diretamente para a prevenção de complicações no longo prazo.
APLICAÇÃO DE INSULINA
Como aplicar insulina corretamente? Antes de aplicar ☐ Lave e seque bem as mãos ☐ Verifique o nome da insulina e a dose prescrita ☐ Observe aspecto da insulina (sem partículas ou alterações inesperadas) ☐ Se for NPH ou insulina em suspensão: homogeneize com movimentos suaves (≈20 vezes para canetas) ☐ Separe todo o material necessário (caneta ou seringa, agulha, álcool 70%) Escolha da agulha ☐ Prefira agulhas curtas (4 mm ou 5 mm) ☐ Evite agulhas ≥ 12 mm ☐ Realize prega cutânea se houver pouca gordura subcutânea (crianças pequenas, pessoas muito magras, idosos) Escolha do local ☐ Abdome ☐ Coxa ☐ Parte posterior do braço ☐ Região superior dos glúteos ☐ Evite áreas endurecidas (lipohipertrofia) ☐ Mantenha distância mínima de 1 cm da aplicação anterior ☐ Faça rodízio adequado entre regiões Aplicação com caneta ☐ Acople a agulha nova ☐ Realize teste de fluxo (teste da gota) ☐ Selecione a dose prescrita ☐ Faça assepsia da pele com álcool 70% e aguarde secar ☐ Introduza a agulha no ângulo adequado (geralmente 90°) ☐ Injete lentamente até o botão retornar a zero ☐ Aguarde pelo menos 10 segundos antes de retirar ☐ Retire a agulha mantendo o botão pressionado Aplicação com seringa ☐ Utilize seringa com agulha fixa ☐ Utilize seringa graduada em unidades internacionais (UI) ☐ Não utilize seringa graduada em mL ☐ Aspire corretamente a dose prescrita ☐ Elimine bolhas de ar antes da aplicação Após a aplicação ☐ Retire a agulha da caneta ☐ Não reutilize agulhas ☐ Não reencape após o uso ☐ Descarte em recipiente próprio para perfurocortantes Armazenamento ☐ Insulina lacrada: refrigerar entre 2°C e 8°C ☐ Insulina em uso: pode permanecer em temperatura ambiente (até 30°C), conforme fabricante ☐ Evite congelamento ☐ Evite exposição prolongada ao calor Segurança adicional ☐ Revise sua técnica periodicamente em consulta ☐ Informe episódios de hipoglicemia ou variabilidade glicêmica ☐ Não altere doses sem orientação médica Lembre-se: A técnica correta reduz risco de hipoglicemia, melhora previsibilidade da ação da insulina e contribui para maior estabilidade metabólica .
MONITORAMENTO DE GLICEMIA
Automonitorização da Glicemia Capilar (AMGC) A automonitorização da glicemia capilar é uma ferramenta essencial no acompanhamento do diabetes. Quando realizada de forma estruturada, permite avaliar resposta ao tratamento, identificar padrões glicêmicos e orientar ajustes terapêuticos com maior segurança. O objetivo não é apenas registrar números, mas compreender o comportamento da glicose ao longo do dia. Como realizar corretamente: 1️⃣ Lave e seque bem as mãos 2️⃣ Utilize lanceta nova a cada medição 3️⃣ Realize a punção lateral da polpa do dedo 4️⃣ Despreze a primeira gota se houver resíduo visível 5️⃣ Registre o valor, horário e contexto (jejum, pós-refeição, exercício, sintomas) 6️⃣ Não comprima excessivamente o dedo, pois pode alterar o resultado A técnica correta reduz variações e melhora a confiabilidade dos dados. Frequência recomendada (de forma individualizada): A frequência depende do perfil clínico e do tratamento: Diabetes tipo 1: • 4 a 7 medições ao dia (antes das refeições, ao deitar e eventualmente 2h após refeições) • Medições adicionais em caso de exercício, sintomas ou ajustes de dose Diabetes tipo 2 em uso de múltiplas doses de insulina: • 3 a 5 medições ao dia • Perfil glicêmico estruturado para ajustes terapêuticos Uso de insulina basal (uma ou duas vezes ao dia): • Glicemia de jejum diária • Pós-prandial alternado conforme orientação Uso apenas de antidiabéticos orais: • Perfil glicêmico 2–3 dias por semana • Avaliação estratégica em momentos específicos (jejum e pós-prandial) A frequência deve sempre ser definida individualmente em consulta. Monitorização Contínua da Glicose (MCG): Além da glicemia capilar tradicional, existem dispositivos de monitoramento contínuo da glicose, como sistemas com sensores subcutâneos (ex.: FreeStyle Libre® e outros). Esses dispositivos permitem: • Avaliação contínua da glicose ao longo do dia • Identificação de padrões noturnos • Cálculo de tempo no alvo (Time in Range) • Redução de hipoglicemias • Melhor compreensão da variabilidade glicêmica São especialmente úteis para: • Diabetes tipo 1 • Pacientes com hipoglicemias frequentes • Variabilidade glicêmica significativa • Necessidade de ajustes intensivos de insulina A indicação deve considerar perfil clínico, acesso e objetivos terapêuticos.
HIPOGLICEMIA: O QUE FAZER?
Hipoglicemia: como reconhecer e agir com segurança A hipoglicemia ocorre quando a glicemia está abaixo de 70 mg/dL. Pode acontecer em pessoas que utilizam insulina ou determinados medicamentos para diabetes, especialmente quando há atraso nas refeições, erro de dose, aumento inesperado da atividade física ou ingestão insuficiente de carboidratos. Reconhecer precocemente os sintomas e agir de forma adequada é fundamental para evitar complicações. Sintomas mais comuns: Os sinais podem variar de pessoa para pessoa, mas geralmente incluem: • Tremores • Sudorese fria • Palpitações • Fome súbita • Tontura • Sonolência • Irritabilidade ou confusão • Visão turva Em casos mais graves, pode haver desorientação importante, perda de consciência ou convulsões. A prevenção faz parte do tratamento: Para reduzir o risco: • Não pular refeições • Ajustar doses conforme orientação • Monitorar glicemia antes de exercícios • Revisar técnica de aplicação de insulina • Levar sempre uma fonte de carboidrato de ação rápida Mensagem final: A hipoglicemia não deve ser encarada como evento isolado. Episódios recorrentes indicam necessidade de reavaliação terapêutica. O acompanhamento estruturado é essencial para segurança e estabilidade metabólica no longo prazo.
CUIDADOs
COM OS PÉS
Por que os pés exigem atenção especial? O diabetes pode afetar nervos e vasos sanguíneos, reduzindo a sensibilidade e comprometendo a circulação nos pés. Essas alterações aumentam o risco de lesões, infecções e, em casos mais graves, complicações que podem ser evitadas com acompanhamento adequado. A prevenção é parte fundamental do tratamento. A neuropatia diabética pode diminuir a percepção de dor e temperatura. Pequenas lesões podem passar despercebidas e evoluir. Além disso, alterações circulatórias dificultam a cicatrização e aumentam o risco de infecção. Por isso, o cuidado diário é essencial — mesmo na ausência de sintomas. Cuidados diários recomendados: • Inspecionar os pés diariamente (inclusive entre os dedos) • Procurar áreas avermelhadas, bolhas, rachaduras ou feridas • Lavar com água morna (não quente) e secar cuidadosamente • Hidratar a pele, evitando a região entre os dedos • Cortar as unhas em linha reta, sem remover excessivamente os cantos • Utilizar calçados fechados, confortáveis e adequados ao formato do pé • Nunca andar descalço Quando procurar avaliação médica? • Feridas que não cicatrizam • Alterações na coloração da pele • Inchaço persistente • Dor, mesmo que leve • Presença de secreção ou sinais de infecção Qualquer lesão deve ser avaliada precocemente. A intervenção oportuna reduz significativamente o risco de complicações. Avaliação periódica faz parte do acompanhamento: A avaliação clínica dos pés deve ser realizada regularmente, com exame da sensibilidade e da circulação. A estratificação do risco permite definir frequência de acompanhamento e necessidade de cuidados adicionais.