Dra. Clarisse Mourão Melo Ponte Endocrinologia e Metabologia
CRMEC 8692 | RQE 3766
Menopausa: conceito, avaliação diagnóstica e critérios para terapia hormonal
A menopausa é definida como a cessação permanente da menstruação, confirmada após 12 meses consecutivos de amenorreia, sem outra causa identificável. Trata-se de um processo fisiológico decorrente da falência ovariana, geralmente ocorrendo entre os 45 e 55 anos.
Do ponto de vista biológico, esse período é marcado pela redução progressiva da produção de estrogênio e progesterona, com impacto não apenas reprodutivo, mas também metabólico, cardiovascular, ósseo e neuropsíquico. Mais do que um evento pontual, a menopausa representa uma transição que pode se estender por anos, com manifestações clínicas variáveis.
A avaliação da mulher nesse período deve ser, antes de tudo, clínica. Sintomas como fogachos, sudorese noturna, alterações do sono, labilidade emocional e sintomas geniturinários são comuns e frequentemente suficientes para o diagnóstico em mulheres na faixa etária típica. A dosagem hormonal não é necessária de rotina, sendo reservada para situações específicas, como dúvida diagnóstica, menopausa precoce ou contextos clínicos atípicos.
Quando indicada, a avaliação laboratorial pode incluir FSH e estradiol, embora sua interpretação deva ser cuidadosa, especialmente durante a perimenopausa, período caracterizado por grande variabilidade hormonal. A elevação sustentada do FSH, associada a níveis baixos de estradiol, pode corroborar o diagnóstico, mas não substitui a avaliação clínica.
Além do diagnóstico, esse momento representa uma oportunidade para uma avaliação mais ampla da saúde. Devem ser considerados fatores de risco cardiovascular, saúde óssea, composição corporal, saúde mental e hábitos de vida, uma vez que a menopausa se associa a mudanças importantes nesses domínios.
A terapia hormonal da menopausa (THM) é a intervenção mais eficaz para o tratamento dos sintomas vasomotores e da síndrome geniturinária. As evidências científicas são consistentes em demonstrar seu benefício quando bem indicada, especialmente em mulheres sintomáticas, com menos de 60 anos ou até 10 anos do início da menopausa.
As principais indicações incluem sintomas vasomotores moderados a intensos e sintomas geniturinários que impactam a qualidade de vida. Além disso, a terapia pode ser considerada para prevenção de perda óssea em mulheres com risco aumentado, quando outras opções não são adequadas.
No entanto, a decisão de iniciar terapia hormonal deve ser individualizada. Fatores como histórico pessoal e familiar, risco cardiovascular, risco de trombose e câncer de mama devem ser cuidadosamente avaliados. A terapia não deve ser utilizada de forma indiscriminada, nem com finalidade estética ou de “rejuvenescimento”, práticas que carecem de respaldo científico e trazem riscos desnecessários.
Outro ponto importante é a escolha do regime terapêutico, que deve considerar a presença ou não de útero, preferências da paciente, perfil de risco e vias de administração. O acompanhamento regular é essencial para reavaliar riscos e benefícios ao longo do tempo.
A abordagem da menopausa exige, portanto, mais do que prescrição. Exige escuta, contextualização e tomada de decisão compartilhada. Não se trata apenas de tratar sintomas, mas de cuidar de uma fase da vida que envolve múltiplas dimensões da saúde.