Dra. Clarisse Mourão Melo Ponte Endocrinologia e Metabologia
CRMEC 8692 | RQE 3766
Diretriz ABESO 2026: uma nova forma de entender e tratar a obesidade
A publicação da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO 2026 marca uma mudança importante na forma como a obesidade deve ser abordada. Mais do que atualizar recomendações, ela reforça um conceito essencial: obesidade não é uma questão estética, mas uma doença crônica, complexa e que exige cuidado contínuo e individualizado.
Um dos pontos centrais da diretriz é a recomendação de não atrasar o tratamento. Hoje, entende-se que a intervenção deve ser considerada de forma mais precoce, especialmente em pessoas com IMC acima de 30 ou acima de 27 quando já existem complicações associadas, como alterações metabólicas, cardiovasculares ou inflamatórias.
Outro avanço importante é olhar além do peso na balança. A distribuição da gordura corporal, principalmente a gordura abdominal, e o impacto dela na saúde passam a ter papel fundamental na decisão de tratamento. Isso permite uma abordagem mais precisa e alinhada ao risco real de cada pessoa.
A diretriz também amplia o objetivo do tratamento. Não se trata apenas de emagrecer. O foco passa a ser melhorar a saúde como um todo, reduzindo riscos, controlando doenças associadas, aumentando a disposição e melhorando a qualidade de vida. Em muitos casos, uma perda de cerca de 10% do peso já pode trazer benefícios clínicos relevantes.
No campo dos medicamentos, a recomendação é clara: quando indicados, eles devem ser utilizados de forma estratégica e individualizada. A escolha não depende apenas do peso, mas também do contexto clínico, das comorbidades, da segurança, da tolerância e da realidade de cada paciente.
Outro ponto essencial é entender que o tratamento da obesidade não é temporário. A diretriz reforça que, assim como outras doenças crônicas, o acompanhamento deve ser contínuo, com ajustes ao longo do tempo para manter os resultados e prevenir recaídas.
Ao mesmo tempo, mudanças no estilo de vida continuam sendo fundamentais. Alimentação, atividade física e comportamento não são substituídos pelos medicamentos, mas caminham junto com eles, potencializando os resultados e promovendo saúde de forma mais ampla.
Por fim, a diretriz alerta para algo muito importante: evitar soluções sem base científica. Fórmulas manipuladas, promessas rápidas e tratamentos sem evidência não fazem parte de um cuidado responsável.
Mais do que um conjunto de regras, a ABESO 2026 propõe uma nova forma de cuidar: mais individualizada, mais baseada em evidência e, principalmente, mais centrada na pessoa.
Referência:
Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretrizes Brasileiras de Obesidade 2026. São Paulo: ABESO; 2026.